
Os Deep Purple são, por definição, uma anomalia na história da música. Enquanto a maioria das bandas da sua geração se transformou em peças de museu, os britânicos insistem em ser uma unidade de combate criativo. Com SPLAT! (2026), o seu 24º álbum de estúdio, a banda atinge a impressionante marca de quatro discos em apenas seis anos — uma cadência de trabalho que faria corar muitos artistas com metade da sua idade.
A colaboração com o produtor Bob Ezrin provou ser um casamento perfeito, refinando a banda para um estado de elegância e economia que, longe de os limitar, os libertou para serem mais diretos e letais.
Avaliação: Deep Purple – SPLAT! (2026)
A Economia da Maestria
O grande triunfo de SPLAT! é a sua concisão. Num mercado onde o "prog" muitas vezes se traduz em excesso, o Purple opta pela precisão cirúrgica. Nenhuma das 13 faixas ultrapassa os cinco minutos, mas cada uma delas é uma lição de arranjo. A banda encontrou uma forma de destilar a sua grandiosidade épica num formato de "single" clássico, onde a improvisação não é um fim, mas um recurso estilístico inserido no calor do momento.
O Diálogo entre McBride e Airey
A chegada de Simon McBride foi o catalisador de uma nova energia, e em SPLAT! a química com Don Airey é deslumbrante. As trocas de solos não parecem um duelo de egos, mas uma conversa cúmplice.
Don Airey: O mestre continua a dominar o Hammond, mas a sua incursão em pianos jazzísticos ("The Beating of Wings") e sintetizadores ("Sacred Land") mostra que, aos 78 anos, ele ainda está a expandir o seu vocabulário.
Simon McBride: O guitarrista consolidou-se. Ele traz a "mordida" necessária para que temas como "Arrogant Boy" e "Third Call" soem modernos sem trair a linhagem histórica do grupo.
Mapeamento da Intensidade
O Fator "Mark II"
A resiliência de Ian Gillan, Roger Glover e Ian Paice é o coração emocional do álbum. Ver Gillan aos 80 anos, ainda audaz e cheio de insinuações, e Paice a tocar como se estivesse a defender a sua vida, é um lembrete daquela "magia" que muitas vezes tentamos explicar com teoria, mas que só se entende ao sentir o pulso da bateria. SPLAT! soa, em muitos momentos, como um "In Rock" ou "Fireball" destilado e otimizado para o século XXI.
"SPLAT! não é o álbum de uma banda que está a tentar recuperar a glória; é o álbum de uma banda que ainda está a escrever o seu futuro. É compacto, é progressivo, é puro Deep Purple."
O Veredito Final
SPLAT! é a prova cabal de que a criatividade não tem prazo de validade. Ao abraçar a brevidade, o Deep Purple conseguiu criar um dos discos mais coesos e dinâmicos da sua discografia recente. McBride encaixou-se como uma luva, e a lenda continua a evoluir, provando que o Hard Rock, quando bem temperado com progressividade e audácia, ainda tem muito a dizer.
Nota: 8.8/10
Destaques: "Third Call", "Arrogant Boy", "Guilt Trippin'".
Recomendado para: Fãs de longa data, entusiastas de guitarras e teclados que buscam técnica sem desperdício e qualquer pessoa que aprecie a longevidade artística sem estagnação.



